Vitamina T

Tacos, tortillas, tortas, tamales, tlacoyos, totopos… Assim somos apresentados à culinária mexicana. Ela engorda, oferece altos riscos de infecção intestinal e arde pra caramba. Mas, de alguma forma, ela te conquista e a verdade é que até hoje não conheci ninguém que não gostasse da comida desse país.

No México, ao contrário da maior parte dos países, a melhor comida não está nos bons restaurantes: está na rua. Saia e pergunte onde você pode encontrar o melhor, e vão te indicar uma esquina qualquer, provavelmente num lugar bizarro, mas que você reconhece que é muito bom porque está apinhado de gente. E o bom é isso mesmo: com suas mãos sujas (eu até usava o gelzinho antibacteriano antes de me mexicanizar, mas desisti), peça o que todo mundo pede, rume umas gotinhas de “salsa” (aham, molho), segure com a mão mesmo, por mais quente que esteja, e pá dentro! Em pé ou sentado num banquinho capenga, do lado do pedreiro e do cara enternado que saiu do escritório. A comida mexicana é a mais democrática que eu já vi.

O que tem de tão bom nessa comida? Tudo é feito com muitas horas e muitos ingredientes, principalmente condimentos. No final, você não sabe dizer bem o que comeu, mas que era bom: sabe que a tortilla é de milho ou de trigo, mas não sabe como ela virou esse disquinho, sabe que o taco é de carne de carneiro, boi, porco, carne de segunda, terceira ou quarta, mas não sabe porque ele tem um gosto totalmente diferente desse outro taco que tem a mesma carne. E as salsas de mil cores? Tem vermelha, verde, marrom, vinagrete que nao é vinagrete, com abacate (mas que não é guacamole), uma pra cada comida diferente. E não tente descobrir o que é pra que, você provavelmente vai se perder. Eu nunca descobri exatamente.

Esse é um povo que adora a mistura de doce com picante. Frutas? Só rola com pimenta (vermelhinha, em pó, com um limãozinho então… hum!!!). E pra quê melhor que um doce de tamarindo com uma pimentinha? E aquele prato esquisito que mistura chocolate com pimenta muito antes da novela da Globo? É mole. Sim, o nome é mole mesmo. E as texturas? Tudo aqui é molhado com salsa, quer dizer, molho. Tortilla cortada molhada com salsa é chilaquiles, inteira é enchiladas. Pao molhado é pambazo, a pamonha é molhada por dentro e se chama tamal. Não tem taco sem salsa, não tem fast food sem Valentina (marca de salsa), e se facilitar, até no feijão com arroz de cada dia nego taca aquela salsa vermelha em cima. Assim, de monte, porque os mexicanos se “enchilan” (verbo OBVIAMENTE mexicano, que é a ação de se arder todo com alguma comida), mas não deixam de comer.

Quer conhecer? Pra começar esqueça todos os restaurantes de comida mexicana que você já conheceu, isso aqui não tem nada a ver nem no sabor, nem na textura, nem no ambiente. Depois, respire fundo e aceite que o mundo é coberto por bactérias. Você e sua comida também. Aí, faça sua cabeça pra experimentar coisas MUITO esquisitas, como sorvete com pimenta, pipoca com suco de limão e hambúrguer com abacate. Deu nojinho? Posso apostar que na terceira vez você já viciou.

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Quem Revoa: Sami

Não cruzou sete mares, mas conta na sua lista o Atlântico, o Canal da Mancha, o Golfo do México, o Mediterrâneo e o Caribe. Ainda não sabe aonde vai ser seu próximo porto, mas, enquanto não se decide, continua navegando.