Mais além do horizonte

Então você decidiu ir. Botou os panos de bunda numa trouxinha, fez aquela festinha com os amigos e se picou, em bom baianês. Você foi com aquela imagem que fica na cabeça do turista, nos emails dos amigos de lá, se tiver, as promessas de conquistas, o futuro promissor – e se não houvesse nada disso, na verdade, você nem teria pensado em ir. Aí, quando chegou lá, tudo era descoberta. Um certo incômodo no primeiro momento, mas todo mundo dizia, principalmente essa imagem que você tinha na cabeça, essa vontade de chegar, essa esperança, tudo dizia que no momento que você se adaptasse, as coisas se resolveriam como por mágica. E você, (querendo se fazer de) inocente, acreditou.

Sabe, nessa idade em que a gente está, nessa geração que teve tudo de mão beijada, ser adulto é mesmo coisa de outro mundo – porque você precisar ir para outro mundo, fisicamente ou não, para cortar o cordão umbilical que ainda prende a gente nas expectativas. A maior parte dos nossos pais mudaram de cidade, alguns até passaram fome de verdade, não sofreram bullying, porque bulling não existia (né, Duda), e aguentavam as coisas assim, na raça. Porque não tinha depressão, não tinha SOE na escola, não tinha pedagogia, nem psicologia, nem pílula do dia seguinte, nem internet, nem nada que tirasse deles a responsabilidade por todos os seus atos. A culpa, na época deles, não era da sociedade, era deles mesmo, porque naquela época criança tinha mais é que engolir o choro senão caía no piau.

Aí nós, protegidos do resto do mundo, achamos que temos tudo para “conquistar o nosso espaço” (nosso, assim, como se alguém tivesse tirado da gente algum dia, né?) só porque falamos umas línguas, éramos bons alunos, trabalhadores esforçados, blablablá. Então (quase) toda a proteção que a família de dava vai por água abaixo e você se vê nu ali, na frente do mundo inteiro. Aí você tenta se adaptar, e obviamente não consegue: tudo naquele lugar deixa claro que você não pertence ali. Aí você culpa aquela cultura bárbara, aquela cidade de merda, o trabalho que não vai pra lugar nenhum (se tiver, né? Olá, desemprego!), ou o curso que decepcionou (se era pra ter um curso ruim, melhor nem saía de Parságada!), tá difícil fazer amigos… E agora?

Agora depende de você. Não, eu não quero dar um final “Disney” ao meu texto. Depende de você porque depende da sua personalidade, dos seus objetivos, da sua resiliência, de você saber exatamente porque está naquele lugar… Mas pode ter certeza que o ambiente NÃO vai mudar. Amigos não vão surgir – VOCÊ FAZ amigos, ou não. O trabalho não vai surgir: VOCÊ CORRE ATRÁS do trabalho certo, ou não. Não tente responsabilizar o lugar pelo fracasso de seus objetivos. Se dois lugares não deram certo para você talvez seja porque você, do jeito que está, não vai dar certo. Aí você muda ou você se muda… talvez pra viver tudo isso de novo… e dar errado de novo.

Com isso, eu não quero dizer o que está certo e o que está errado. Mas antes de pegar seus paninhos de bunda e botar o pé na estrada, e principalmente quando você já está lá, é FUNDAMENTAL ter bem claro em sua mente duas coisas: 1) Por que eu estou aqui? O que me fez decidir? O que é que existe aqui que não existe no meu berço? 2) Será que sou eu o problema, e não o lugar onde estou? Será que eu não estou jogando as minhas expectativas num lugar só porque eu não tinha a força para concretizá-las no lugar onde eu estou/estava? Será que minhas expectativas não são reais? Será que eu não estou responsabilizando o mundo porque eu não estou conseguindo lidar com minhas frustrações?

E nunca esqueça que se até na morte existe Kubler-Ross (os 5 estágios para lidar com a perda/tragédia), um dia você vai sair dessa negação/isolamento e vai chegar até a aceitação, mesmo que tenha que passar pela cólera, negociação e depressão até lá. Duvida? Prazer, me chamo Samira, já passei por tudo isso (e por muito mais) e estou aqui, vivinha e decidida a viver tudo isso de novo.

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Quem Revoa: Sami

Não cruzou sete mares, mas conta na sua lista o Atlântico, o Canal da Mancha, o Golfo do México, o Mediterrâneo e o Caribe. Ainda não sabe aonde vai ser seu próximo porto, mas, enquanto não se decide, continua navegando.