Além do horizonte…

… existe um lugar bonito e tranquilo pra gente se amar? Será mesmo? Eu fiquei na vontade de escrever esse post depois da reunião passada dos Inomináveis (eu deixo vocês perguntarem pra não tirar a graça). Já escrevi um post parecido no meu blog, mas esse é um assunto que nunca acaba. Por isso mesmo provavelmente vai virar uma série, mas dessas que nunca acabam, tipo Malhação.

A decisão de morar em outro lugar, seja cidade, estado ou país, ainda que seja por tempo determinado é sempre complicada, tanto para quem vai quanto para quem fica.  Para os dois, a expectativa de ter tudo novo de novo, uma oportunidade pra fazer funcionar tudo que não funcionou, ou simplesmente deixar pra trás. E depois, quando a pessoa já tá além do horizonte, os versos mudam: “Vou-me embora para Parságada, aqui eu não sou feliz, lá a existência é uma aventura”!

E agora? Ir ou não ir? O que existe além do horizonte? Em Parságada eu sou realmente amiga do Rei? Should I stay or should I go? De quem já viveu em três países diferentes, ou melhor, quatro, contando o Brasil, cinco, seis e sete, se eu contar todas as vezes que voltei pra cá e me encontrei em um lugar diferente (ou me encontrei diferente em um lugar), eu conto aqui algumas de minhas experiências.

Começando pelo que existe além do horizonte: já que eu estou muito musical, eu vou te dizer que you can’t always get what you want, but if you try sometimes you might find you get what you need. Eu fui para a França procurando paz espiritural, cultura e conhecimento, não achei nenhum dos três e encontrei uma paixão. Eu fui para o México procurando uma paixão e paz espiritual, e encontrei cultura, conhecimento e sérios problemas no meu relacionamento. Eu voltei para o Brasil me procurando, me achei, mas me perdi no conhecimento. Fui para a Espanha procurar o conhecimento de novo e a paixão, não achei nenhum dos dois, e encontrei o martelo de carne e o recomeço de toda uma vida. E voltei para o Brasil me procurando… de novo.

São tantas coisas para dizer que serão muitos, muitos posts. Hoje eu só quero falar sobre uma coisa antes do post ficar gigante. Seja humilde e se dispa das expectativas. Aonde quer que você vá, você vai ter muito mais para aprender do que para ensinar, porque você vai ser uma poeirinha numa sociedade esquisita e imensa. E você não entende essa cultura, não sabe aonde ir, não vai ter ninguém para ligar às nove pra sair com você. Ou pode até ter, mas aquela pessoa não vai te colocar no colo como seus amigos de Parságada. Nem vai entender o contexto de seus problemas, porque só você é a única desterrada. Além do horizonte você é mais um que chega. Em Parságada você é a única que vai, porque você é única para as pessoas que ficam. Aí você se frustra e pensa em voltar para Parságada. Mas aqui, na verdade, você não é amiga do Rei, porque se fosse, nunca teria ido. Parságada continua igual. E o pior: você sente aquela dorzinha, porque descobre que aqui também a vida continua, mesmo sem você – e continua daquele mesmo jeito, com aqueles mesmos motivos que te fez ir embora. Então você entende que você nunca se despiu das expectativas, porque você também tinha expectativa de que Parságada te recebesse com os braços abertos e um contracheque na mão, como o pai recebeu o filho pródigo na parábola cristã.

E tem gente aqui em Parságada pensando que bem-aventurados são os que vão além do horizonte, porque acham que “triste de quem vive em casa, contente com o seu lar, sem que um sonho, no erguer de asa, faça até mais rubra a brasa da lareira a abandonar”! Mas não entendem que além do horizonte existe uma terra exatamente como essa, feita de chão, e um céu exatamente como esse, inalcançável.

Mas aí vocês me perguntam, e eu termino com Fernando Pessoa de novo para depois seguir a prosa:

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
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Quem Revoa: Sami

Não cruzou sete mares, mas conta na sua lista o Atlântico, o Canal da Mancha, o Golfo do México, o Mediterrâneo e o Caribe. Ainda não sabe aonde vai ser seu próximo porto, mas, enquanto não se decide, continua navegando.